07 maio 2008

Culpa



À senhora Dra. deputada Teresa Caeiro, que ontem mesmo – ao que parece na sua triste estreia como colunista do Correio da Manhã – explorava a ignorância com a sua demagogia barata sobre os ideais do 25 de Abril de 1974, tenho de dizer que o partido que a senhora deputada representa é tão ou mais responsável pela situação calamitosa que se vive em Portugal como os que vêm defendendo que se cumpra Abril. (Na prática será bastante mais responsável, pois o seu partido esteve no poder incomparavelmente mais tempo que qualquer partido de esquerda.)

Na verdade, à tão luminosa ideologia de direita, que, diz a senhora deputada, promove a criação de riqueza, a liberdade de escolha e o crivo da qualidade, é preciso acrescentar que o faz a qualquer preço, a atropelo de qualquer humanidade e defendendo, em primeiro lugar, os interesses dos mais fortes. (Tudo, claro, dentro da melhor tradição cristã.)

Dizer que o PS é um partido socialista no sentido de Abril é um absurdo. Como é um absurdo tomar o socialismo por exemplos extremos como Cuba e a Coreia do Norte. Se é certo que os ideais socialistas sofrem pelas duras realidades que a história foi revelando, que dizer da sociedade dita civilizada, ocidental, centrada no mercado, no consumo, no bem-estar material e na “melhoria do nível de vida”?

Na ressaca de 40 anos de ditadura, que tornaram este pequeno país num país pequeno, pobre, obsoleto, triste e desinteressante, como estranhar que as primeiras acções fossem controversas, radicais, inusitadas? Como não esperar que a escola inclusiva e que a ideologia libertária parecessem boas soluções?

O que é de estranhar é que os ideais radicais voltem a fazer-se sentir, 35 anos depois da revolução que libertou o país de um regime opressivo. Ou se calhar não são assim tão estranhas essas tendências, apenas se duvida da insipidez com que a revolta se vai fazendo sentir. Na verdade, o país atingiu – e não foi com ideais socialistas, sejamos honestos – o ponto mais baixo do seu desenvolvimento, na medida em que nunca como agora nos últimos 35 anos a diferença entre os poucos muito ricos e os muitos (e muito) pobres foi tão angustiante.

Estamos mal habituados, oiço algures, porque nunca tivemos tanto, nunca tivemos tanto em que gastar o pouco que ainda nos resta. É verdade, mas se assim é isso deve-se à defesa intransigente de um modelo sustentando pelo consumo, pela produção massificada e pela equalização entre propriedade e prosperidade. Certamente que a senhora deputada não se estava a referir a isto quando falava em socialismo.

Nunca como hoje se financiou tanto os cofres públicos – a excepção são, como se vê, os grandes grupos económicos, que parecem ser os únicos a fazer vingar a tese da competitividade fiscal face aos outros países para manterem um regime principesco, para o qual todos contribuímos, claro – mas nunca, como hoje, as lacunas do Estado foram tão gritantes, sobretudo para aqueles que têm maiores dificuldades em encontrar alternativas nos serviços privados, quando as há. Repare-se na tão propalada eficiência da máquina fiscal, que afinal não passa de uma manada de jumentos a quem acenaram com uma cenoura para cumprirem objectivos de receita, e mais não são que aqueles polícias de giro que, à ordem superior, são um dia por semana mais dados a autuar cidadãos incautos. Estes são, no resto dos dias, pouco dados a manter a civilidade e a impor regras de forma equitativa. Aqueles acabam por ser lestos a espremer o máximo dos que pouco têm para deixar fugir os que andam à vontade, os que preferem off-shores ou investir em familiares emigrados.

Isto passa-se aqui. E já se passa há muitos anos, incluindo aqueles em que no poder houve uma maioria de direita, que se preocupou em dar a mão aos empreendedores mas que não a deu vazia.

[em actualização]

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